26-10-2006

Não é chuva... é água

medium_Jose1.jpgHabituei-me a vê-lo no seu regresso da escola, mochila às costas com aquele sorriso de miúdo sabido estampado no rosto, a saltitar de poça em poça.

 

– Então José!? … vais assim, à chuva?

 

– Não é chuva senhor António, é água… dizia ele concentrado no splash dos seus pés.

 

Sempre fora assim vivaço, sem emenda na palavra nem entendimento para os mais pequenos rudimentos da vida. Desesperava a mãe que já só se limitava a pedir-lhe brandamente para não se molhar, não entrar em bulhas e não rogar pragas, ao que ele respondia como sempre, sim senhora minha mãe, e guardava o pedido algures em zonas recônditas daquela cabeça de cabelo negro e revolto.

 

Naquele ano, as chuvas demoraram a chegar. O Outono já se despedia e o céu não tinha feito mais do que pequenos reparos a um solo que se estriava de uma seca da qual já não havia memória.

 

No entanto aquela manha prometia. Algumas gotas molharam o pó da terra deixando o odor de solo fértil e aromático das primeiras chuvas. José olhou pela janela para um céu que se cobria de nuvens carregadas de uma promessa latente.

 

- José… nem penses em ir para a rua assim, ouviste?

 

- Sim minha mãe… -  respondeu olhando o gato que lhe devolveu um olhar de cumplicidade felina.

 

De repente o trovejar deu lugar a uma chuva grossa e fria, dando razão à senhora do boletim meteorológico que a tinha anunciado nas notícias do dia anterior, e José de rosto aberto e olhos iluminados esgueirou-se pela porta da rua numa correria de corpo inteiro em prece pela dádiva recebida.

 

- José… olha que chove filho…

 

- Não é chuva mãe… é água.

 

Al Manaque