10-11-2006
Sou fã do Chico, logo devo ser normalzinho...
Li, com este ar normalzinho que tenho e com algum horror também, a rubrica “Homem-a-dias” assinada por Alberto Gonçalves na revista “Sábado”. Bom, este senhor, sociólogo de profissão (só lhe fica bem), deu-lhe para opinar com o rasteirismo pretensioso de quem vê o mundo pela luneta do snobismo erudito, a obra do Chico Buarque. Nada de mais se se limitasse a exprimir a sua opinião e ficar por aí com as suas angústias de cultura linguística. Mas não contente com isso, resolveu cascar no pessoal que na sua normalidade intelectual, acha a obra do Chico de grande valor cultural e manda até bitaites de que Gershwin e Sondheim é que são bons. Nada contra os fulanos, mas comparar obras tão díspares na sua génese cultural e na sua intencionalidade social só revela uma total falta de… (falha-me o adjectivo, escolham vocês)… e recordou-me aquele fórum na net onde foi colocado a votos “Qual o melhor guitarrista da actualidade?”, como se uma coisa dessas fosse elegível.
Ao senhor Alberto Gonçalves, que parece ser o género de pessoa que tenta brilhar pelo comentário controverso, que se refere ao Chico como “cretino”, que desvaloriza notoriamente a cultura de língua portuguesa em favor da hollywoodesca, para ele… o meu traque da manha
Deixo aqui o texto integral do tal artigo (não sei se isto me é permitido... haja alguém que o diga), para o lerem também se possível com um ar normalzinho estampado no rosto, esta pérola da mediocridade opinatória.
Al Sete
«A actual digressão recordou-me a existência de Chico Buarque. Quando eu era adolescente, achava-o um génio, a ponto de ter dado o nome completo dele, Hollanda incluído, a um cão (quem preza a companhia dos bichos percebe a importância do gesto). Depois uma pessoa cresce, conhece Gershwin e Sondheim e já não volta a ouvir Construção sem paternalismo, ou Cálice sem genuíno horror. De Chico Buarque sobraram-me uns discos velhos, a memória de dois ou três concertos (fraquinhos), certa simpatia por meia dúzia de canções remotas e um cão morto. Hoje, parece-me absurdo dedicar-lhe um culto ou sequer particular atenção. Há quem discorde. Refiro-me àqueles sujeitos adultos, e abundantes em Portugal, que se lhe referem sempre como “o Chico”. Para esses, não há cantigas como as do Chico, rimas como as do Chico e, após duas novelas miseráveis e uma sofrível (Budapeste), livros como os do Chico. Chico Buarque, que, embora cretino no que diz, é razoável no que faz, não tem culpa. Nem ele nem nenhuma das outras figuras do meio artístico e cultural brasileiro que muitos portugueses deram em venerar com desmesura e intimidade, de Caetano a Niemeyer, de Drummond a Millôr.
A culpa, se a há, é de um país tão pequeno, nos diversos sentidos, que consegue olhar para o Brasil e pasmar. Felizmente, a democracia abriu-nos ao mundo; infelizmente, para muitos de nós o mundo terminou no Rio de Janeiro e na Baía, que redescobrimos com maior euforia e piores motivos que Cabral. É verdade que partilhamos a língua, mas erguê-la a critério cego do gosto implica um apreço pela obra de Mia Couto, digamos, que não pode trazer nada de bom. É também verdade que o Brasil possui uma produção criativa rara numa nação do hemisfério sul, e notável, se a avaliarmos em função da nossa. Mas é apenas isso: o espelho, bonitinho e decentemente ornamentado, da pobreza lusitana.
Donde, apesar de constrangedor, é preferível o deslumbre de alguns portugueses com o Brasil que o deslumbre de alguns portugueses com Portugal. Se incensar o Chico revela mera ignorância, gostar de Chico Buarque é compreensível, e até recomendável, lá suportar, sem ameaça de arma, os Gaiteiros de Lisboa entra nos domínios da desordem neurológica.»
Alberto Gonçalves in Sábado
11:05 Escrito em Al Sete | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: Chico Buarque, Alberto Gonçalves, Sábado, parvo






