26-06-2008
pequenos prazeres
Durante a minha morte senti o desdém de alguns que por mim passaram. Olharam-me do alto da burra, sorriram por dentro e sairam cabisbaixos com a satisfação apenas perceptível em pequenos espasmos musculares num canto do lábio. Digo durante, porque a morte não acontece de forma repentina. Deus, o fulano das barbas brancas e voz de tuba, deu-nos essa benesse. Morremos devagar, com a lentidão necessária para que todos esses crápulas que nos sorriem em vida, mostrem as fuças na sua verdadeira essência quanto nos apagamos serenamente. Que se fodam - pensei com as presilhas da minha urna. Eu só estou deitado inerte porque a isso me permiti, quando olhei demais o sol, quando digeri o tal veneno que nos agudiza os sentidos. Por falar nisso, sinto muito, afinal estou em vantagem neste momento em que me sustento na leveza do éter e vos esmiuço os pensamentos com este dom provisório ofertado pelo tal fulano das barbas. Digo mais, se conseguisse transmitir algum movimento a um dos meus braços, pregava-vos um susto de morte com um daqueles tabefes vindos do além. Olha aquele fulano lá do escritório. Deteve-se mais tempo. Fiz um esforço terrível para não me mover. Disparate... os mortos não se movem. Acertou o nó da gravata, disse qualquer coisa sem interesse acerca do destino, fez contas acerca de possíveis promoções e saiu como entrou. Chegou alguém que amo... não, não me desligues agora... raio de barbuuuudddoooo.
07:38 Escrito em Al Sete | Permalink | Comentários (2) | Enviar por e-mail






