29-03-2008

Vôo do moscardo

Tal qual meu pai que sonhava em sonhos, eu também sonhava voar. Sonhos preenchidos de voos mirabolantes, vagueando pelos céus como ave leve e sem pouso. Somente voar, entre árvores, linhas eléctricas, roçando pontes e deixando no ar quente, lá no alto, sons sibilantes das minhas asas cortando a noite. No cimo daquele terraço, de braços abertos e olhos semicerrados medindo o que me parecia um enorme abismo de três metros, eu senti um tremor nas pernas. Tinha falado com ele, e após uma análise profunda das leis da física contidas no meu único livro do Super Homem iniciei o projecto. Ele...? não, não o meu pai... a voz residente em mim, sem corpo mas com a coerência do próprio grilo falante, companheiro assíduo nas minhas brincadeiras de miúdo fechado, único rebento de uma série de meninas. As conversas eram sempre amenas, cordiais, mas de quando em vez dava por mim a argumentar com a minha própria voz detalhes técnicos acerca da colecção de aranhas, a observação das formigas ou o assunto desta história,... a capa do Super-Homem. Porque era na capa que residia o segredo de voo. Resolvemosimprovisar uma com um tecido velho que encontrei na mala da minha avó. Ensaiei logo depois alguns saltos no muro do quintal e, na minha estranha forma de entender o mundo, a coisa resultava. Subi ao terraço da garagem e ali estava eu, de braços abertos sentindo já a brisa de odores mil elevando-me pelos ares, sibilando aos meus ouvidos. Olhei para os três metros que me separavam do chão, olhei por cima do ombro para a capa toda enfeitada com cornucópias e reavaliei a sua estrutura. Achei por bem fazer algumas alterações. Desci, e inspirado nos papagaios feitos em papel de jornal, juntei-lhe seis varas de canas da índia, cruzadas, presas com seguranças das fraldas do Migas, surripiadas do cestinho da minha tia Mariana num momento de desatenção afectuosa. Olhei desta vez satisfeito, para todo aquele aparelho de voo e subi novamente ao telhado, agora mais confiante na complexidade da estrutura que tinha criado. Olhei novamente para baixo… abri os braços com os dedos aprumados pelas abas da capa e achei por bem fechar os olhos para que os três metros do solo não me intimidassem…  foi nessa altura que ouvi a voz que me habitava – "Talvez não seja boa ideia saltar… " - um moscardo zumbia ao meu ouvido – "…  está mais que provado que resulta". Desci, mais aliviado que renitente, sem saber nunca quem me havia demovido da concretização do sonho, se o medo, o amigo invisível, ou... o moscardo.

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