09-07-2007

Quim das Corgas

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O Quim era louco. Sentava-se no madeiro do banco corrido, cofiando a barba, snifando rapé e entoando um monólogo interminável como se o fizesse no próprio respirar. Eu ficava de ouvido à escuta tentando apanhar algum sentido no que ele dizia, em busca de alguma pista para aquela demência que me fascinava e me aterrorizava.

Diziam-se coisas da sua passagem pelo ultramar, outros associavam o seu desatino a um amor perdido. Ocorreu-me perguntar-lhe mas achei por bem não o tentar naquele momento, porque naquele momento ele fulminava-me com aquele olhar terrível que o fazia temido nas redondezas.

- Eu disse um quartilho... - vociferou enquanto apoiava as mão enormes no balcão - ... e isto não é um quartilho!! - impressionante como todas as partes do seu corpo de gigante pareciam conjugar-se com aquele olhar que se pregava no copo de vinho. Depois resolveu prega-lo em mim. Tentei olhá-lo de frente, não nos olhos directamente mas numa zona algures por ali onde as minhas pernas não tremessem tanto.

- Não posso... a minha mãe... proibiu... - a voz saiu-me esganiçada e sem convicção. Nada como tinha planeado quando tossiquei para libertar o nó da garganta - ... queres que a chame aqui? - era um argumento covarde mas que eu sabia surtir algum efeito. Baixou os olhos para o copo e quando o ergueu, bebeu-o de uma só vez. Não que fosse de beber em demasia mas sabia-se o que um copo a mais conseguia fazer na sua loucura natural. Era vê-lo pelas ruas bradando aqui-del-rei-ás-armas, cambaleando trôpego atrás dos catraios que sumiam pelos becos deixando os botões do jogo do pião abandonados no centro da roda.

Tinha a força de um touro. Chamavam-no quando o trabalho era duro e ele entregava a sua força como mais ninguém e por quase nada. Sentou-se e transformou-se. Já me tinha habituado àquelas mudanças bruscas de humor. O seu corpo sorriu. Vestiu-se com a docilidade infantil de um velho. Podia perguntar agora, pensei. Cheguei-me ao balcão, mais perto, para sentir a força da sua presença. Segurava nas suas mãos fortes, ásperas, o chapéu sujo e gasto.

- .. Quim... - chamei. Ficou igual, com um respirar profundo e mágico. Procurei as palavras mas não encontrei nada que jeito tivesse e a curiosidade foi-se. Fiquei só a ver-lhe o rosto marcado, dócil e os olhos perdidos no branco da parede. Morreu nessa mesma noite no percurso que acompanha o comboio até à vila, talvez tocado por ele, talvez tocado por alguém que o feriu de morte e ali o deixou abandonado, sem dó. Conheciam-se inimizades e histórias de partilhas mas tudo isso morreu também pouco tempo depois. Ficou uma foto sua, exposta no café da aldeia numa pose de génio taralhouco mas com o olhar mais lúcido que lhe conheci.

Al Manaque

Comentários

muito comovente...interessante
continua assim
bj
maria

Escrito por: maria | 17-07-2007

Esse miúdo tem memórias que tu não podes deixar de escrever! Nunca!
Não o deixes sózinho na meninice dele.
Senta-o ao teu colo. Não.
Ao teu lado.
E conversa com ele até não ficar mais nada para dizer!
Depois, diz-me se valeu ou não a pena.

Escrito por: Rosa Maria | 12-09-2007

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