06-06-2007

Ti Zefa

Ti Zefa, Josefa Rosa de Jesus de seu nome, vivia na casinha branca de meias portas, que pontuava o topo da subida onde noutros tempos corríamos dali em sentido contrário, encavalitados doidos nos carros feitos de pau, amarrados em cordel no eixo volante. Vestia preto, sempre, por nojo de alguém que nunca soube quem, pois não conhecia morte recente na prole, tirando a de um seu filho do meio mas que sendo após este incidente, não serve para o conto. A sua vida era um emaranhado sombrio de rezas e mezinhas tudo alinhado numa coerência desalinhada á custa de uma imensidão de filhos, netos e bisnetos que deambulavam na sua asa parecendo a todos como que sem eira nem beira mas onde tudo dava certo no final do dia ao contar das cabeças. Chamavam-lhe de bruxa, à boca pequena, como convém nestas coisas do não-sabemos-com-o-que-é-que-lidamos, e eu nunca soube se de facto não o seria depois de ter assistido ao “milagre da água fervente”.

A Joaninha, filha mais velha da Ti Jacinta, começou a sofrer duma febre estranha e teimosa que não arredava pé dos quarenta graus e que a mantinha sem forças nem animo num estado tal que todo o lugar se ressentiu enquanto assistia ao definhar da moçoila que pouco tempo antes encantava tudo e todos com as suas faces rosadas e olhar risonho.

Chamaram a Ti Zefa depois de já terem chamado o Dr. Seabra, o Dr. Jacinto e até mesmo o menino Ricardo que estudava medicina no Porto na esperança de, quem sabe … talvez tivesse conhecimentos de novas doenças, que são coisas que estão sempre a aparecer.

Nesse dia corri da escola como doido, larguei a sacola na entrada da mercearia e olhei para o terraço onde se realizava o estranho ritual. O que vi com os meus olhos nesse dia, soa-me a surreal com os meus olhos de hoje.

A Joaninha estava sentada numa cadeira de costas direitas com um respirar grave e o olhar estranhamente alheio a tudo o que se passava em seu redor. Pousado na sua cabeça, tinha um copo meio de água, e fez-me extrema confusão a perícia com que ele se mantinha quedo e estável. Talvez á força de algo sobrenatural pensei eu, ou então o mais provável, fruto da mesma técnica da Ti Celeste do Outeiro, que sempre carregava qualquer coisa na cabeça, fosse o jigo do pasto para o gado, fosse a bilha do leite ou mesmo a garrafa do vinho para a janta, tudo sempre sem ajuda de qualquer das mãos e com uma tal liberdade de movimentos que me deixava atónito pensando se não haveria por ali um qualquer mecanismo por mim desconhecido o qual tivessem adaptado no seu cocuruto.

À sua volta a Ti Zefa, curvada nas suas preces, gesticulava com os seus braços curtos aquilo que me pareciam benzeduras. Fiquei ali especado ainda ofegante, agarrado ao gradeamento olhando o que de repente aconteceu com contornos de milagre.

Da base do copo começaram a aparecer umas bolhas minúsculas que rapidamente te tornaram num borbulhar fervente e quando os presentes soltaram exclamações de surpresa a Joaninha pareceu acordar do seu sono estranho, o copo tremelicou em cima da sua cabeça e não fosse a mão providencial da Ti Zefa teria mesmo entornado a água que se o borbulhar fosse de quentura, faria danos irreparáveis no rosto da cachopa. Tal não aconteceu e a mezinha acabou sem sobressaltos. Os presentes dispersaram e a Joaninha regressou ao seu leito com ares de pior saúde do que antes do incidente. Dormiu vinte e duas horas num sono medonho que obrigou a família a uma vigília contínua á sua respiração febril.

O dia seguinte foi de festa… a Joaninha acordou sem febre e com uma fome voraz.

Al Manaque

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