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31-05-2007

poetas ao poder



Metade

Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio.

Que a música que eu ouço ao longe
seja linda, ainda que triste.
Que a mulher que eu amo
seja sempre amada, mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida
e a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimento.
Porque metade de mim é o que eu ouço,
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço.
Que essa tensão que me corroe por dentro
seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso
e a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste,
que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto o doce sorriso
que eu me lembro de ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que
uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo,
mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é a platéia
e a outra metade, a canção.

E que minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor e a outra metade...
também.

Oswaldo Montenegro

18:20 Escrito em Al Sete | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail

16-05-2007

teus olhos

medium_skin_gauguin03.jpgNaquele dia houve um momento em que o sol passou pelos teus olhos claros e deixou um sol mais aberto nos meus, no mesmo momento em que eu disse perto da tua boca, perto dos olhos teus – Vês os meus olhos abertos agora amplos que outrora definhavam...? - e o sol continuou o seu percurso pelo mundo enquanto eu alinhava os meus lábios nos teus e o tempo, na sua complacência, torneava displicente o nosso tempo de tão pouco, e eu torneava o teu corpo com gestos meigos e tementes de que o fogo ardesse de uma só vez na palma da minha mão que só queima quando toco, que só arde quando amo. Não é só adoração o que sinto.

 

 

Al Nónimo

22:20 Escrito em Al Nónimo | Permalink | Comentários (2) | Enviar por e-mail

08-05-2007

Labirinto

Acho bonito falar alemão.
Por isso, talvez, eu não queira aprender a falar alemão.
Se eu falasse alemão
as pessoas iriam dizer, simplesmente, “ele fala alemão”
e aí perderia toda a graça.

A graça está em achar bonito falar alemão.
Por isso, às vezes,
eu deixo de fazer algumas coisas.
Deixo de dizer que te amo
porque dizer que te amo soaria como uma banalidade a mais
nesse mundo cheio de banalidades.
e onde habito eu, um poeta das banalidades
E simplesmente me calo, deixo a barba crescer
escrevo poemas para depois apagá-los de minha lembrança
e esqueço coisas que seriam inesquecíveis
simplesmente porque perdi a capacidade
de reter as coisas boas em minha memória.


Hermínio Bello de Carvalho

16:53 Escrito em Al Nónimo | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail

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