26-06-2008

pequenos prazeres

Durante a minha morte senti o desdém de alguns que por mim passaram. Olharam-me do alto da burra, sorriram por dentro e sairam cabisbaixos com a satisfação apenas perceptível em pequenos espasmos musculares num canto do lábio. Digo durante, porque a morte não acontece de forma repentina. Deus, o fulano das barbas brancas e voz de tuba, deu-nos essa benesse. Morremos devagar, com a lentidão necessária para que todos esses crápulas que nos sorriem em vida, mostrem as fuças na sua verdadeira essência quanto nos apagamos serenamente. Que se fodam - pensei com as presilhas da minha urna. Eu só estou deitado inerte porque a isso me permiti, quando olhei demais o sol, quando digeri o tal veneno que nos agudiza os sentidos. Por falar nisso, sinto muito, afinal estou em vantagem neste momento em que me sustento na leveza do éter e vos esmiuço os pensamentos com este dom provisório ofertado pelo tal fulano das barbas. Digo mais, se conseguisse transmitir algum movimento a um dos meus braços, pregava-vos um susto de morte com um daqueles tabefes vindos do além. Olha aquele fulano lá do escritório. Deteve-se mais tempo. Fiz um esforço terrível para não me mover. Disparate... os mortos não se movem. Acertou o nó da gravata, disse qualquer coisa sem interesse acerca do destino, fez contas acerca de possíveis promoções  e saiu como entrou. Chegou alguém que amo... não, não me desligues agora... raio de barbuuuudddoooo.

31-05-2007

poetas ao poder



Metade

Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio.

Que a música que eu ouço ao longe
seja linda, ainda que triste.
Que a mulher que eu amo
seja sempre amada, mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida
e a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimento.
Porque metade de mim é o que eu ouço,
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço.
Que essa tensão que me corroe por dentro
seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso
e a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste,
que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto o doce sorriso
que eu me lembro de ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que
uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo,
mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é a platéia
e a outra metade, a canção.

E que minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor e a outra metade...
também.

Oswaldo Montenegro

10-11-2006

Sou fã do Chico, logo devo ser normalzinho...

medium_chico_buarque.jpgLi, com este ar normalzinho que tenho e com algum horror também, a rubrica “Homem-a-dias” assinada por Alberto Gonçalves na revista “Sábado”. Bom, este senhor, sociólogo de profissão (só lhe fica bem), deu-lhe para opinar com o rasteirismo pretensioso de quem vê o mundo pela luneta do snobismo erudito, a obra do Chico Buarque. Nada de mais se se limitasse a exprimir a sua opinião e ficar por aí com as suas angústias de cultura linguística. Mas não contente com isso, resolveu cascar no pessoal que na sua normalidade intelectual, acha a obra do Chico de grande valor cultural e manda até bitaites de que Gershwin e Sondheim é que são bons. Nada contra os fulanos, mas comparar obras tão díspares na sua génese cultural e na sua intencionalidade social só revela uma total falta de… (falha-me o adjectivo, escolham vocês)… e recordou-me aquele fórum na net onde foi colocado a votos “Qual o melhor guitarrista da actualidade?”, como se uma coisa dessas fosse elegível.  

Ao senhor Alberto Gonçalves, que parece ser o género de pessoa que tenta brilhar pelo comentário controverso, que se refere ao Chico como “cretino”, que desvaloriza notoriamente a cultura de língua portuguesa em favor da hollywoodesca, para ele… o meu traque da manha

Deixo aqui o texto integral do tal artigo (não sei se isto me é permitido... haja alguém que o diga), para o lerem também se possível com um ar normalzinho estampado no rosto, esta pérola da mediocridade opinatória.

Al Sete  

«A actual digressão recordou-me a existência de Chico Buarque. Quando eu era adolescente, achava-o um génio, a ponto de ter dado o nome completo dele, Hollanda incluído, a um cão (quem preza a companhia dos bichos percebe a importância do gesto). Depois uma pessoa cresce, conhece Gershwin e Sondheim e já não volta a ouvir Construção sem paternalismo, ou Cálice sem genuíno horror. De Chico Buarque sobraram-me uns discos velhos, a memória de dois ou três concertos (fraquinhos), certa simpatia por meia dúzia de canções remotas e um cão morto. Hoje, parece-me absurdo dedicar-lhe um culto ou sequer particular atenção. Há quem discorde. Refiro-me àqueles sujeitos adultos, e abundantes em Portugal, que se lhe referem sempre como “o Chico”. Para esses, não há cantigas como as do Chico, rimas como as do Chico e, após duas novelas miseráveis e uma sofrível (Budapeste), livros como os do Chico. Chico Buarque, que, embora cretino no que diz, é razoável no que faz, não tem culpa. Nem ele nem nenhuma das outras figuras do meio artístico e cultural brasileiro que muitos portugueses deram em venerar com desmesura e intimidade, de Caetano a Niemeyer, de Drummond a Millôr.
A culpa, se a há, é de um país tão pequeno, nos diversos sentidos, que consegue olhar para o Brasil e pasmar. Felizmente, a democracia abriu-nos ao mundo; infelizmente, para muitos de nós o mundo terminou no Rio de Janeiro e na Baía, que redescobrimos com maior euforia e piores motivos que Cabral. É verdade que partilhamos a língua, mas erguê-la a critério cego do gosto implica um apreço pela obra de Mia Couto, digamos, que não pode trazer nada de bom. É também verdade que o Brasil possui uma produção criativa rara numa nação do hemisfério sul, e notável, se a avaliarmos em função da nossa. Mas é apenas isso: o espelho, bonitinho e decentemente ornamentado, da pobreza lusitana.
Donde, apesar de constrangedor, é preferível o deslumbre de alguns portugueses com o Brasil que o deslumbre de alguns portugueses com Portugal. Se incensar o Chico revela mera ignorância, gostar de Chico Buarque é compreensível, e até recomendável, lá suportar, sem ameaça de arma, os Gaiteiros de Lisboa entra nos domínios da desordem neurológica.»

Alberto Gonçalves in Sábado

09-10-2006

Manha diferente

medium_LaymonsTooth.jpgComo todas as manhas, fui lavar os dentes. No tubo não havia pasta. Também observei que não tinha dentes. Por uma vez...

 

Tomei o pequeno-almoço. Era pequeno. Faltava o leite, o café, o açucar e o papo-seco. Antes de chegar ao emprego passo pelo café.

 

Saí. A escada tinha menos degraus do que na véspera. A porta da rua ficou-me na mão. Dobrei-a em quatro e deitei-a no lixo.

Logo, perto do lixo, encontrei um vizinho, dei-lhe os bons dias mas ele refilou. Tinha as suas razões...

 

Verifiquei que o meu carro tinha apenas três rodas. O vidro estava partido. Não faz mal, assim não preciso de chave para entrar.

 

O café estava fechado para reestruturação. Tanto melhor.

 

No escritório desapareceu a minha mesa com todos os "dossiers" urgentes, inclusivê o organigrama. Felizmente, a empresa mudou de nome e ramo.

 

Al Sete (texto que se julga pertencer á famosa revista "Pão com Manteiga")

02-09-2006

Gente de quem a gente não gosta

medium_Al3.jpgAqui na redacção do Alma Naque, deu-nos para eleger algumas figuras públicas de quem a gente realmente não gosta. Pelo caminho ficou o pessoal a quem não damos grande importância, ou que não preenche os requisitos minímos de incompetência e parvoíce, pessoas tipo... não presta mas come-se, ou ... não és parvinho de todo mas de vez em quando fazes-te. Esses terão certamente o seu apontamento numa rubrica que eventualmente terá como tiítulo, "gente que... pronto, a gente não se importa desde que não se mexa muito...".

Mas neste apontamento é o pessoal da pesada o eleito. Pessoas dadas a comentários repletos de inteligência rasteira e tolerância... duvidosa. Para eles, o meu traque da manhã. Descobrirão lacunas nesta listagem e isso é descaradamente propositado porque resolvemos cá na redacção, deixar uma porta aberta (o contínuo vai abrir... hã... coloca o calço Xavier... ok, está aberta), para que os nossos leitores contribuam com mais e mais gente parva desde que, dentro dos tais requisitos mínimos, tudo isto com o objectivo de tornar esta listagem numa ferramenta social de inquestionável valor e que mais tarde será publicada em forma de colecção de cromos em que o carimbado será o próprio Alberto João em pessoa. Bem hajam. Al Sete

  • Alberto J. Jardim
  • George W. Bush
  • Saddam Hussein
  • Barbie
  • Valentim Loureiro (foi a Zé que mandou Sr. Major, é suspeita, mas tudo bem...)
  • Jean-Marie Le Pen (é assim que se escreve João?... hã...? ok)
  • Tózé Martinho (...)