26-06-2008

pequenos prazeres

Durante a minha morte senti o desdém de alguns que por mim passaram. Olharam-me do alto da burra, sorriram por dentro e sairam cabisbaixos com a satisfação apenas perceptível em pequenos espasmos musculares num canto do lábio. Digo durante, porque a morte não acontece de forma repentina. Deus, o fulano das barbas brancas e voz de tuba, deu-nos essa benesse. Morremos devagar, com a lentidão necessária para que todos esses crápulas que nos sorriem em vida, mostrem as fuças na sua verdadeira essência quanto nos apagamos serenamente. Que se fodam - pensei com as presilhas da minha urna. Eu só estou deitado inerte porque a isso me permiti, quando olhei demais o sol, quando digeri o tal veneno que nos agudiza os sentidos. Por falar nisso, sinto muito, afinal estou em vantagem neste momento em que me sustento na leveza do éter e vos esmiuço os pensamentos com este dom provisório ofertado pelo tal fulano das barbas. Digo mais, se conseguisse transmitir algum movimento a um dos meus braços, pregava-vos um susto de morte com um daqueles tabefes vindos do além. Olha aquele fulano lá do escritório. Deteve-se mais tempo. Fiz um esforço terrível para não me mover. Disparate... os mortos não se movem. Acertou o nó da gravata, disse qualquer coisa sem interesse acerca do destino, fez contas acerca de possíveis promoções  e saiu como entrou. Chegou alguém que amo... não, não me desligues agora... raio de barbuuuudddoooo.

29-03-2008

Vôo do moscardo

Tal qual meu pai que sonhava em sonhos, eu também sonhava voar. Sonhos preenchidos de voos mirabolantes, vagueando pelos céus como ave leve e sem pouso. Somente voar, entre árvores, linhas eléctricas, roçando pontes e deixando no ar quente, lá no alto, sons sibilantes das minhas asas cortando a noite. No cimo daquele terraço, de braços abertos e olhos semicerrados medindo o que me parecia um enorme abismo de três metros, eu senti um tremor nas pernas. Tinha falado com ele, e após uma análise profunda das leis da física contidas no meu único livro do Super Homem iniciei o projecto. Ele...? não, não o meu pai... a voz residente em mim, sem corpo mas com a coerência do próprio grilo falante, companheiro assíduo nas minhas brincadeiras de miúdo fechado, único rebento de uma série de meninas. As conversas eram sempre amenas, cordiais, mas de quando em vez dava por mim a argumentar com a minha própria voz detalhes técnicos acerca da colecção de aranhas, a observação das formigas ou o assunto desta história,... a capa do Super-Homem. Porque era na capa que residia o segredo de voo. Resolvemosimprovisar uma com um tecido velho que encontrei na mala da minha avó. Ensaiei logo depois alguns saltos no muro do quintal e, na minha estranha forma de entender o mundo, a coisa resultava. Subi ao terraço da garagem e ali estava eu, de braços abertos sentindo já a brisa de odores mil elevando-me pelos ares, sibilando aos meus ouvidos. Olhei para os três metros que me separavam do chão, olhei por cima do ombro para a capa toda enfeitada com cornucópias e reavaliei a sua estrutura. Achei por bem fazer algumas alterações. Desci, e inspirado nos papagaios feitos em papel de jornal, juntei-lhe seis varas de canas da índia, cruzadas, presas com seguranças das fraldas do Migas, surripiadas do cestinho da minha tia Mariana num momento de desatenção afectuosa. Olhei desta vez satisfeito, para todo aquele aparelho de voo e subi novamente ao telhado, agora mais confiante na complexidade da estrutura que tinha criado. Olhei novamente para baixo… abri os braços com os dedos aprumados pelas abas da capa e achei por bem fechar os olhos para que os três metros do solo não me intimidassem…  foi nessa altura que ouvi a voz que me habitava – "Talvez não seja boa ideia saltar… " - um moscardo zumbia ao meu ouvido – "…  está mais que provado que resulta". Desci, mais aliviado que renitente, sem saber nunca quem me havia demovido da concretização do sonho, se o medo, o amigo invisível, ou... o moscardo.

01-02-2008

Pecados

03a9d41dcba4c0eed28addb6c387e421.jpg- Diz-me lá rapaz...? conta-me dos teus pecados? - apoiava o rosto rosado nas mãos brancas colocadas em prece e os seus olhos baixavam displicentes daquele corpo sóbrio, posicionado em busto de santo, enquanto aguardava de mim o relatório das dores de Deus. Era sempre assim, inquieto, olhando-me sem vontade de me ver, ascultando-me pecados algures num ponto qualquer atrás de mim, envolvendo-me com a voz de veludo que ainda hoje usa para polir os défices espirituais das almas negras que levitam escuras, pelas coxias da igreja.

Os meus pecados... quais pecados?!? Os mesmos pecados que inspiraram Dante, num inferno de chamas abertas, devorando corpos e almas. Os meus pecados... estigmas patrocinados por uma igreja escura e decadente que se afirmava sobre um povo dócil com o dogma etéreo da fé. Mas quais pecados? Acabava sempre por confessar pecados imaginários e servia-os ali como se fossem o prato do dia do menu da alma. Confessava que mentia, desobedecia, dizia palavrões... confessava dessa forma que não sabia rigorosamente nada acerca do pecado.

Aí o Sr. Abade suspirava e envolvia-me em orações e credos, condescendente com a minha falta de argumentos, com a minha falta de convicção.

Eu ouvia, só. Fazia um acompanhamento mudo do vocabulário esotérico e sereno que nunca consegui aprender em todos aquelas sessões sacras.

A sentença saía numa série de padre nossos e avé marias a soletrar nos degraus do altar-mor, de olhos postos, devotos, num Cristo crucificado de braços abertos de sofrimento e sangue. As preces saíam-me com erros de entendimento, sussurradas no vazio da minha cabeça e ali mesmo ao meu lado, pagando a sua conta, João do Boco avançado-mor nos jogos da bola de sábado à tarde, de olhos pregados no vermelho do tapete que adornava a cruz, sussurrava também ele no vazio da sua cabeça, caralhos e fodasses, heresias cultivadas nas ruas da aldeia, os mesmos com que incentivava o nonagésimo toque na bola sem a deixar cair no chão.